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terça-feira, 16 de setembro de 2014

Resenha - A casa no Limiar ou A casa do Fim do Mundo - William Hope Hodgson





Sinopse: Tido como um clássico eterno, que vem sendo lido e relido desde a sua primeira publicação em Londres no ano de 1908. ‘A Casa do Fim do Mundo’, de William Hope Hodgson, combina ficção científica, fantasia e terror numa mistura poderosa. Narra a história de um nobre irlandês, o nome nunca é dito, que se isola em uma antiga e estranha mansão, no extremo oeste do país, o chamado Gaeltacht — a região onde todo mundo falava (pelo menos na época em que a história se passa) apenas a língua irlandesa céltica. É leitura obrigatória para os verdadeiros conhecedores do gênero terror – e oferece um passeio fantasmagórico pela linha tênue que delimita fantasia e realidade, viver e sonhar, esperança e morte.

Hoje vim falar sobre um gênero literário que eu particularmente gosto muito – o terror, mais especificamente sobre um autor clássico que infelizmente não tem o mesmo prestígio ofertado a autores do mesmo calibre, sendo quase desconhecido atualmente. Sendo este, William Hope Hodgson. Suas obras tem o toque certo em que o mistério e o terror se mesclam pra criar aquele clima de medo que prende-nos até a última página.
Esse livro em especial narra a história de Lorde Gault um homem já no fim da meia idade e início da velhice que vive com a irmã Mary e seu cão Pepper. Eles mudam-se para uma antiga mansão em uma região remota localizada na costa oeste da Irlanda para um lugarejo chamado Kraighten, a casa é cercada pela superstição local. Dizem as lendas que foi erigida pelo próprio demônio. Informação “corroborada” pelo fato dela ser rodeada por sinistras estátuas, ter um poço aparentemente sem fundo, além do fato (que dá título à obra) de ter sido construída a beira de um enorme abismo.
No entanto o livro inicia muitos anos depois, quando a casa não passa de uma ruína e dois viajantes decidem se aventurar pelo interior da Irlanda e encontram o diário de Lorde Gault perdido nas ruínas da mansão.

[...] —Vem comigo! — ele gritou no meio do barulho. — Vamos dar uma olhada naquilo. Tem algo esquisito nesse lugar, eu sinto isso nos meus ossos.
E ele saiu andando, contornando a borda do abismo que pare­cia uma cratera. Quando nos aproximávamos da novidade, eu vi que não me enganara em minha primeira impressão. Era sem dúvida parte de um edifício arruinado, mas então eu vi que não tinha sido construído à borda do precipício propriamente dita, como eu supusera, mas pregada quase na ponta de uma enorme espora de rocha que se lançava até uns quinze ou vinte metros para dentro do abismo. [...]

A história é narrada em primeira pessoa, utilizando os personagens de um dos viajantes e do próprio Lorde Gault. Cada acontecimento marcante, cada fato antinatural é relatado no diário.
Os livros do Hodgson, apesar de uma qualidade inegável comparáveis a Lovecraft e inspiradores de mestres modernos não são valorizados pelas editoras, sobretudo, no Brasil, reedições então não existem...!

Por isso projetos como do escritor José Geraldo Gouvea são extremamente louváveis e merecem ser celebrados. Ele traduziu o livro por conta própria modernizado expressões e tornado a linguagem acessível contemporaneamente. Li a versão dele e dou meu aval. E ao William Hope Hodgson, apenas... Admiração eterna. <3


Para quem por ventura se interessar segue o link:

sábado, 13 de setembro de 2014

Resenha Eleanor & Park - Rainbow Rowell


ROWELL, Rainbow. Eleanor & Park. São Paulo: Novo Século, 2014. 


Sinopse: Eleanor & Park é engraçado, triste, sarcástico, sincero e, acima de tudo, geek. Os personagens que dão título ao livro são dois jovens vizinhos de dezesseis anos. Park, descendente de coreanos e apaixonado por música e quadrinhos, não chega exatamente a ser popular, mas consegue não ser incomodado pelos colegas de escola. Eleanor, ruiva, sempre vestida com roupas estranhas e “grande” (ela pensa em si própria como gorda), é a filha mais velha de uma problemática família. Os dois se encontram no ônibus escolar todos os dias. Apesar de uma certa relutância no início, começam a conversar, enquanto dividem os quadrinhos de X-Men e Watchmen. E nem a tiração de sarro dos amigos e a desaprovação da família impede que Eleanor e Park se apaixonem, ao som de The Cure e Smiths. Esta é uma história sobre o primeiro amor, sobre como ele é invariavelmente intenso e quase sempre fadado a quebrar corações. Um amor que faz você se sentir desesperado e esperançoso ao mesmo tempo.

Já deixei a adolescência para trás há alguns anos e embora muitos leitores adultos torçam o nariz para os livros YA – jovem adulto - eu ainda os leio eventualmente. Existem YA primorosos, embora não seja o caso da grande maioria, é necessário saber separar o joio do trigo.

Aventuradamente topei com um deles. Eleanor & Park apareceu em minha vida por meio do lançamento de outro livro da autora. O tal lançamento era Fangirl e em breve estreará resenhado por aqui. 

A autora Rainbow Rowell é natural dos EUA, e além dos dois livros citados acima escreveu Attachments, que foi seu livro de estreia.

A história se passa na década de 80 e o livro é repleto, do início ao fim, de citações musicais, trilha sonora perfeita que por si só vale a leitura. Não bastasse isso, temos os protagonistas que dão título a obra.

Eleanor subverte totalmente a futilidade de muita obra destinada à jovens, ela não pertence ao padrão de beleza por assim dizer, ela é uma garota gorda, cita-se várias vezes no livro o quanto é uma Garota Grande. Uma big girl. E ela é mesmo em todos os sentidos. Sofre bullyng na escola por conta do peso e sua família passa por dificuldades financeiras e emocionais. Sua mãe e irmãos vivem à sombra do terror de seu padrasto, um verdadeiro monstro. Ainda assim Eleanor é uma heroína, um exemplo pra vida.


[...] - Você não liga para o que as pessoas pensam de você.
- Tá louco? – ela perguntou. – Eu ligo pro que todo mundo pensa de mim.
- Não dá pra perceber – ele disse. – Você parece tão segura, não importa o que aconteça ao redor. Minha avó diria que você é bem resolvida.
- Por que ela diria isso?
- Porque é assim que ela fala.
- Eu sou é bem confundida – ela disse. – E por que estamos falando de mim? A gente tava falando de você[...] 

Park é um garoto passando pelos problemas típicos de sua idade, busca por identidade, foge dos holofotes, pois tem pra si que o fato de ser “mestiço’ (meio caucasiano meio coreano) já é desabonador o suficiente em uma escola de ensino médio. Apesar de todo seu esforço em não se aproximar de Eleanor, pois a seu ver ela é um alvo ambulante acaba se apaixonando por ela.

A autora tem uma escrita divina, utiliza-se de uma técnica sublime com a narrativa em terceira pessoa estruturada em paralelo, assim sendo, a história é contada por meio dos pontos de vista dos dois protagonistas. O livro é narrado hora por Park hora por Eleanor, alternando as vezes capítulos, as vezes parágrafos e centra-se nos problemas de Eleanor e como o relacionamento deles a ajuda a superá-los.

"[...] Segurar a mão de Eleanor era como segurar uma borboleta, ou um batimento cardíaco. Como segurar algo completo e completamente vivo." (Park).

A história é linda. Sem clichês. Tem um final surpreendente e eu super recomendo MESMO!



Uma das playlists que pipocam pela net baseada no livro. Bjs.


Playlist Eleanor & Park



UPDATE:


DreamWorks Studios Comprou os direitos do livro pro cinema. :)

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Resenha - Entremundos - Neil Gaiman e Michael Reaves

GAIMAN, Neil; REAVES, Michael. Entremundos. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.



Ao saber do lançamento desse livro já sabia que ia adquiri-lo tão logo saísse da prensa. Justo motivo do Gaiman ter um lugar de destaque no meu top 10 de autores. Sobre o Michel Reaves só tive boas recomendações. Pra se ter uma ideia, ele trabalhou como roteirista de séries de Sci fi como Star Trek: The Next Generation, Darth Maul: O Caçador das Sombras, além de Caverna do Dragão *-*, assim sendo comprei-o no dia do lançamento.
O livro é o primeiro de uma trilogia que mescla gêneros tendo muito de ficção científica e uma pitada de fantasia e mesmo com toda expectativa (afinal Gaiman é Gaiman) não decepciona.

Conta a história de Joey Harker um garoto que nasceu com a bússola quebrada. Sabe aquelas pessoas que tem muita dificuldade de se locomover sozinhas, vivem se perdendo, completamente incapazes de chegar do ponto a ao b sem desvios involuntários? Pois é, ele é desses.

Um belo dia ele se perde em meio a um trabalho de escola feito em campo. Se dando conta ao retornar para casa que adentrou outra realidade. Outro mundo. Nesse mundo muito parecido com o seu ele também existe, mas é uma garota. Esse é a primeira vez que ele “anda” que é como referem-se no livro sobre sua habilidade.
Com a ajuda de um estranho de máscara prateada ele consegue chegar na Interzona, que é descrita como dobras entre os planos da realidade. Posteriormente ele descobre que é apenas um de muitas versões suas e que todos possuem a mesma habilidade de andar entre os mundos sendo responsáveis pela manutenção do equilíbrio entre magia e ciência, tendo em vista que esse equilíbrio está em perigo devido aos avanços imperialistas de dois mundos rivais. 

As descrições são vívidas e acho que a experiência com cartoons do Michel Reaves dá esse tom tão bacana à estória.
O livro conta com conceitos que a priori deviam ser complicados, emprestados da física quântica, mas que os autores tornam fáceis de assimilar. Não é um livro denso como muitos livros do Gaiman, não incita tanta reflexões como os leitores estão acostumados inclusive em seus livros juvenis como é o caso desse. Mas conquista pela leveza.

A obra faz parte de um projeto que inicialmente se destinou a uma série de TV e levou 10 anos pra se realizar. Fica a dica. Vale a leitura.

Imperdível - Breaking Bad

Yeah! Science bitch!


Se você é uma das poucas pessoas nessa pequena galáxia denominada via láctea que não acompanhou Breaking Bad no seu período usual corra atrás do prejuízo urgente pessoa, pois se existe algo que miraculosamente conseguiu agradar crítica e público é essa série.

O milagre se deve ao primor com que ela foi redigida, produzida e encenada. Sendo assim a história cativa, pois possui uma narrativa inteligente e um desenvolvimento irretocável. Os personagens são tão verossímeis que sentimos suas dores, bem como suas conquistas, torcemos por eles e por hora os odiamos de uma forma tão passional que a série tem sido considerada um fenômeno cultural.

Tudo se deve a familiaridade do drama de Whiter White (o personagem principal) que pode acometer a qualquer um e a todos - Câncer. Ele vive um rotina entediante de professor de química e descobre um dia que tem câncer de pulmão esse é o evento que desencadeia um desvio em seu caminho. 

Seu diagnóstico não é animador, tem em média de 2 anos de vida. Ele possui um filho de 16 anos com paralisia cerebral leve prestes a ir a faculdade, a esposa está grávida. Os gastos com seu tratamento, hipoteca, despesas médicas da gravidez e faculdade do filho ultrapassariam e muito suas receitas financeiras, em suma, partiria e deixaria a família quebrada e com o futuro arruinado. 

Arquiteta, assim, utilizar seus conhecimentos em química. Inspirado nos trabalhos de seu cunhado Hank Schrader policial da Narcóticos idealiza fazer um pé de meia para sua família entrando para o ramo das drogas. Walter decide usar sua mente brilhante e seu talento nato para a química afim de produzir a melhor e mais pura metanfetamina que o mercado já viu. Sem muitos planejamentos, numa situação arriscada afim de obter altos ganhos. Decide para tanto chantagear um ex aluno seu Jesse Pinkman que já atua como traficante e também é um viciado em metanfetamina, entre outras drogas para ajuda-lo nos negócios.


Esse é o roteiro da série mais cultuada dos últimos anos e sem dúvida com o encerramento mais coerente da última década. Durante as 5 temporadas acompanhamos esse cidadão normal Walter White transformar-se em seu álter ego criminoso Heisenberg e a sua derrocada moral de forma inversamente proporcional Jesse cresce enquanto ser humano e amadurece durante esse período. Cada episódio deixa uma mensagem, possui referências mil. Enfim, a série, vale muito, muito a pena.

Curiosidades:

  • Em uma entrevista Vince Gilligan explicou que o termo “breaking bad” é uma expressão do sul dos EUA, similar à “to raise hell”. Para nós brasileiros, seria algo próximo a “chutar o pau da barraca” ou “ligar o foda-se”.
  • A equipe de The Walking Dead auxiliou na cena “Duas Caras” de Gus Fring.
  • O pseudônimo de Walter White, Heisenberg, é uma homenagem a Werner Heisenberg, um famoso físico teórico alemão que recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1932.
  • Teoria das Cores - Durante toda a série, a produção teve um trabalho todo especial no que diz respeito as cores. Levando em consideração a Teoria da Cor, que diz que cada cor representa um sentimento ou uma ação, as variações das tonalidades de roupa usada por Walter White no decorrer das cinco temporadas de “Breaking Bad”, definiam o sentimento do personagem no momento (além das roupas, objetos do cenário também tinham cores que representavam o clima da cena).
    O designer John LaRue criou uma paleta que decifra o esquema de cores dos seis principais personagens da série (Walt, Jesse, Hank, Skyler, Marie e Junior) para mostrar como a série vai ficando pesada e sombria à medida em que ela avança.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Resenha - Aventuras de Alice no país das maravilhas e através do espelho e o que Alice encontrou por lá

AVENTURAS DE ALICE EM BUSCA DO AMADURECIMENTO.

CARROLL, Lewis. Aventuras de Alice no país das maravilhas. In:______. Alice: Aventuras de Alice no país das maravilhas e através do espelho e o que Alice encontrou por lá. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.


Lewis Carrol, autor de Alice no País das Maravilhas e Alice através do Espelho foi um escritor, poeta, matemático e fotógrafo inglês. Um homem de diversas facetas e interesses, sendo sua obra-prima, inclusive, produto dessa diversidade.
Ainda no período concernente ao nascimento da fotografia, Carrol já possuía o estranho hábito de fotografar meninas nuas. Essa atitude sua, junto a frases polêmicas e a preferência pela companhia infantil tornaram-no constante alvo de especulações envolvendo pedofilia. O.O
Após conhecer Alice Pleasance Liddell, então com 10 anos e filha do reitor da faculdade onde lecionava matemática, Carrol passou a fotografá-la, a fazer passeios e a conhecer cada vez mais os sonhos e os problemas da menina. Observando todo o seu comportamento, Carrol passou a traçar o modelo ideal de personagem para um livro que segundo ele, surgia aos poucos conforme ia contando a história para a própria Alice.
Alice no País das Maravilhas foi publicada originalmente em 4 de julho de 1865 e a partir daí suas adaptações só foram se multiplicando. O fascínio do mundo pela obra reside em sua facilidade de compreensão pelas crianças e a complexidade de ideias que vão se adicionando ao texto a cada vez que o leitor, mais maduro, relê a obra.
A linha criativa é simples, porém perfeita. Alice, uma garota que está cansada de ouvir as histórias de livros sem figuras que sua irmã mais velha lhe conta, começa a seguir um apressado coelho branco até a sua toca, onde cai em um buraco e é levada para um local cheio de criaturas antropomórficas e bizarras, que muitas vezes chegam a beirar a loucura.
A organização dos doze capítulos é feita de maneira confortável ao leitor. Apesar de todas as passagens terem ligações entre si, cada capítulo apresenta uma história fechada, com começo meio e fim, fazendo com que mesmo o leitor mais apressado consiga ler um pouco da história por dia.
Mesmo curto (e com figuras), o livro traz diversos enigmas matemáticos e referências a eventos e personalidades que podem demorar um bom tempo para serem decifrados, ainda mais nos dias de hoje, já que mesmo para as pessoas anglófonas, muitas das palavras e referências de dupla interpretação já não fazem o mesmo sentido nos dias de hoje, sendo necessário garimpar a história e a linguística da língua inglesa para tal.
O livro como um todo representa uma crítica às histórias pueris e politicamente corretas que eram feitos para crianças durante o reinado da Rainha Vitória, época que o livro foi escrito. O molde cheio de morais pré-formatados, foi abandonado pelo autor, que misturou elementos criativos, fugindo de uma “moral engessada”.
Alice no País das Maravilhas é um livro grandioso por ser ele inteiro uma grande analogia ao amadurecimento. Alice é uma personagem que está numa idade capciosa, onde o ser humano é posto a prova todos os dias. Está em um momento de passagem entre a infância e a as responsabilidades do mundo adulto, de forma, que em muitos momentos é considerada “grande” para apresentar certos comportamentos e criança demais para entender certas explicações, o que termina por ser conflitante, pois, pressupõe-se que ainda não é madura o suficiente para agir ou pensar de determinada maneira aparentemente mais adulta, algo constantemente cobrado dela.
Carrol retrata tal situação no País das Maravilhas por meio dos cogumelos. Comendo um lado do cogumelo, Alice cresce, comendo do outro lado ela diminui. Experimentando os lados do cogumelo, Alice tem a oportunidade de experimentar os dois lados a qual estava inserida, o mundo adulto e o mundo infantil.
Fica claro na história que todas as vezes que ela cresce, ela tenta parecer mais adulta. Como quando encontra a mãe pássaro que a confunde com uma serpente, ou quando entende sua superioridade reconhecendo a falta de força física de um baralho de cartas. Nos momentos em que está pequena, a personagem sempre busca abrigo, alento, algo a que se apoiar para seguir sua busca pelo jardim que encontrou nas primeiras portas que precisava abrir.
Metáforas de crescimento estão presentes em cada parte do livro, mas vale destacar também o encontro de Alice com a Lagarta que fuma narguilé. Pela primeira vez no livro, Alice acaba se deparando com a questão mais fundamental de sua idade: quem é ela.
No livro, Alice precipita-se muitas vezes a responder. A dúvida permeia a cabeça dela que não tem certeza se é mais importante definir-se pelo seu presente ou pelo seu futuro. E a dúvida não foi colocada na cabeça de Alice por meio da figura de uma Lagarta por acaso: lagartas são frequentemente caracterizadas como borboletas em crescimento, logo não pelo que são, mas pelo que serão.
As várias faces de personagens metaforizados pelo livro buscam provocar e ao mesmo tempo comover o leitor. E assim como todo o País das Maravilhas, guardam segredos discretos, mas concretos, que vão dando a Alice condições de enxergar o mundo cru e sem figuras que ela tanto rejeita.
Vale lembrar que toda a aventura de Alice se passa em um sonho seu. Assim, todos os personagens são reflexo do que pensa a própria Alice. Fazendo das pessoas que ela encontra no País das Maravilhas algumas das visões que ela tem dos adultos do mundo real.
Vários das mais comuns caricatos de pessoas estão presentes no livro. Afinal quem nunca conheceu pessoas de alto valor no meio/profissão que exercem que preferem resolver tudo aos gritos, sem conhecer as opiniões ou os pontos de vista das pessoas ao seu redor. A Rainha de Copas é a representante máxima de professores autoritários que tantas pessoas já se acostumaram a tolerar.
A própria majestade da rainha ser derivada de um baralho de cartas já reflete uma parte do mundo adulto: a vida é como um jogo, onde se conta com a sorte, se blefa, se mente, se tenta esconder direitos e abusa dos deveres.
A quantidade de disputas que todos os personagens do livro entram em diversas situações, desde a conturbada casa da Duquesa até os lamentos pessoais da Tartaruga Falsa, mostram o quão frágil o adulto é, apesar de tentar mostrar as crianças a sua força interior.
Apesar de serem o parâmetro para o amadurecimento, quando mais Alice conhece o mundo adulto através das analogias do País das Maravilhas, mais a garota passa a entender o quão conflitante é a imaturidade do mundo adulto.
Ao mesmo tempo, a própria Alice entra em conflitos quando vislumbra sua imagem adulta, abordando os vários lados psicológicos que a menina (e todos os outros adultos) tende. Enquanto o Gato de Cheshire representa o seu id, seu lado criança, brincalhão, despreocupado, que segue instintos e faz tudo o que tem vontade, o Coelho Branco representa a Alice madura, responsável, que cumpre com suas obrigações e age determinada quando é preciso ter pulso firme.
Toda a interpretação, seja ela própria ou derivada, parte do pressuposto de que são apenas interpretações. Carrol nunca deixou claro o que realmente Alice queria transmitir ao leitor. A busca por respostas é um trabalho que exige muito esforço do ser humano, por isso diferente das obras infantis da época, Alice é a tentativa do autor em despertar na criança sua capacidade inventiva para encontrar suas repostas ao invés de tê-la pronta e digerida. O autor soube captar a essência da imaginação humana para compor uma história de autodescoberta, cheia de enigmas e novas visões que se enriquecem a cada nova interpretação.


O MUNDO AO CONTRÁRIO.

Tendo conhecimento sobre Alice no país das maravilhas é bem fácil conceber como foi estruturado Alice através do espelho. O livro, bem como seu antecessor é dividido em doze capítulos com ilustrações.
A história inicia-se com Alice brincando com suas três gatas e à medida que ela vai conversando com as felinas, começa a imaginar como é a vida dentro do espelho. Começa a observar e percebe criaturas que estão imóveis na sala como as peças do xadrez se movimentando do outro lado do espelho. Ela prontamente resolve entrar nesse mundo ao contrário com muitos conceitos invertidos e acontecimentos imprevisíveis, tendo como tema o jogo de xadrez e encontra lá criaturas fantásticas e excêntricas que nunca antes haviam visto uma menina de verdade.
Apesar de como seu antecessor ser classificado como livro infantil o livro possui simbolismos, referências e conceitos de diversas áreas do conhecimento, no entanto, predominam os matemáticos referentes a formação do autor.
Trocadilhos e referências da época também são encontrados, sendo os mesmos de difícil compreensão atualmente.
O livro diverte. A cada capítulo a curiosidade se faz mais e mais presente, já que é totalmente impossível prever que personagem estranho aparecerá e o que acontecerá a seguir. Apesar de ser classificado como infanto-juvenil (e em várias passagens ser bem evidente o lado infantil), não é de todo um livro só para crianças. A obra traz em si alguns simbolismos e pode ser interpretada de diversas maneiras.
A edição da Editora Zahar é realmente obrigatória de se ter na estante. Além de ter as duas histórias – clássicos da literatura –, traz os textos na íntegra e ilustrações originais de John Tenniel que dão uma beleza a mais ao texto e contam a história por meio das imagens nos permitindo viajar ao mundo de sonhos de Alice.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Resenha - Como eu Era antes de você Jojo Moyes


MOYES, Jojo. Como eu era antes de você. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2013. 320p. Título original: Me before you.

Trecho:
“Você está marcada no meu coração, Clark. Desde o dia em que chegou, com suas roupas ridículas, suas piadas ruins e sua total incapacidade de disfarçar o que sente. Você mudou a minha vida muito [...]”

Como eu era antes de você é aquele tipo de leitura que te acompanha pra sempre. O tipo de livro que te marca e que você sempre lembrará nos momentos chave da sua vida, pois é um livro que retrata superação e é, sobretudo uma história sobre amor, vida e mortalidade. Tocando, assim, num dos pontos mais nefrálgicos de nosso inconsciente.

Louisa Clark, 26 anos, vive com os pais, o avô, a irmã Katrina e o sobrinho pequeno. Namora Patrick há vários anos, um triatleta mais interessado na carreira do que nela. Louisa não se importa muito com nada, não pensa na carreira, nem no namoro, em suma, não se importa com o futuro. Trabalha há 6 anos em um café e não tem ambições.
O Café em que Louisa trabalha fali. O emprego do pai está perigando por conta da recessão Inglesa o que torna imprescindível encontrar outro emprego. Tarefa ingrata, tendo em vista suas poucas qualificações.
Devido a essas dificuldades Louisa acaba se voltando ao emprego de cuidadora, mesmo sem possuir a menor aptidão. Imagina que irá cuidar de um velhinho, mas se depara com:
Will Traynor, 35 anos. Inteligente, bem sucedido profissional e pessoalmente é o tipo de pessoa que ama a vida, sempre à procura de aventuras, viagens, esportes radicais. 
Logo no início Will é atropelado a caminho do trabalho e o acidente o deixa tetraplégico.
Ao contrário do que parece Loiusa apesar de toda sua apatia em relação à própria vida é bem engraçada, divertida e interessante e Will após o acidente torna-se amargo e não vê sentido em sua vida, tornando-se obstinado a fazer com que todos estejam cientes de sua infelicidade, mas mesmo sem querer esbanja charme, sagacidade e inteligência.
Os dois se detestam a primeira vista, mas os 6 meses do contrato de Louisa trazem a possibilidade de grande aprendizado mútuo.
O livro é lindo, bem escrito, leve, apesar do tema, ainda assim, preparem-se para chorar baldes. Foi uma obra que comprei por acaso e me pegou totalmente desprevenida. Além de Lou e Will os personagens secundários são muito bem construídos, a família de Louisa, (Hilária) a família de Will carrega o peso da tragédia de forma tão verossímil que empatizamos completamente.
É um majestosa história que trata sobre o amor em todas as suas vertentes e sobre o que levamos dessa vida. Mais uma coisa: não é um livro triste. Leiam. Super recomendo.