O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Apontamentos:
Tenho um fraco por metalinguagem, não só na poesia ou literatura em si. Descobri essa predileção há pouco tempo, embora a conserve há muito. Filmes como essa temática como A Rosa Púrpura do Cairo do Wood Allen também me encantam. Por falar em filmes assisti recentemente um que trata sobre a obra do Allen chamado Paris-Manhattan que apresenta essa característica também e provavelmente renderá um post.
Digressões a parte essa poesia do Fernando Pessoa retrata como ele vê-se enquanto poeta um artista ficcional (fingidor) que empresta seu sentimento (dor) a poesia, tanto a dor fictícia quanto a real. Aos demais viventes resta relatarem suas dores, mas somente o poeta consegue empregar seu poder criativo de forma a imaginar dores não sentidas e transformá-las em arte.
Se sintam a vontade para comentar. Bjinhos.