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terça-feira, 29 de julho de 2014

Poesia do dia - Autopsicografia - Fernando Pessoa


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


E os que leem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.



E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


Apontamentos:

Tenho um fraco por metalinguagem, não só na poesia ou literatura em si. Descobri essa predileção há pouco tempo, embora a conserve há muito. Filmes como essa temática como A Rosa Púrpura do Cairo do Wood Allen também me encantam. Por falar em filmes assisti recentemente um que trata sobre a obra do Allen chamado Paris-Manhattan que apresenta essa característica também e provavelmente renderá um post.

Digressões a parte essa poesia do Fernando Pessoa retrata como ele vê-se enquanto poeta um artista ficcional (fingidor) que empresta seu sentimento (dor) a poesia, tanto a dor fictícia quanto a real. Aos demais viventes resta relatarem suas dores, mas somente o poeta consegue empregar seu poder criativo de forma a imaginar dores não sentidas e transformá-las em arte. 

Se sintam a vontade para comentar. Bjinhos.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Poesia do dia - Motivo - Cecília Meireles

MEIRELES, Cecília. Motivo. In: ___. Viagem e Vaga Música. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.


Apontamentos:

A escrita de Cecília Meireles é marcada pelo uso da Metalinguagem que ocorre basicamente, quando a linguagem trata sobre a própria linguagem. No poema Motivo isso aparece de forma bem delineada nas reflexões da autora sobre o que a torna poetisa, além de demonstrar o poder que a arte tem de relegar imortalidade, muito embora o artista seja mortal. Retrata assim as razões pessoais da autora do fazer poético.

Sou apaixonada por essa poesia, ainda tenho um caderninho azul decorado que guardei da pré-adolescência em que colecionava poesias e ela está na primeira página.

Espero que tenham gostado. Bjinhos.